A vida nas colônias

Solidariedade

O casal Bacurau e Terezinha não teve filhos biológicos, entretanto, ele criou os cinco filhos dela, de outro casamento, como se fossem seus. Além destes, criou várias outras crianças como filhos, durante toda a vida. Teve época em que abrigou nove pessoas, mas jamais faltou um prato de comida. A casa ficava aberta para qualquer um que necessitasse, fosse amigo, estivesse de passagem ou fosse visitar.

Raimundo Nonato, irmão de Bacurau, lembra o espírito solidário dele:

 “Vi o carro dele sujo. Falei brincando: ‘tu não tem vergonha desse carro sujo na garagem?’. Ele disse: ‘o dinheiro tá pouco, não deu pra mandar lavar’. Afastei o carro e comecei a lavá-lo. Chega um casal do interior, rapaz jovem, a moça com o bucho grande. Perguntou se eu sabia onde morava o Bacurau, falei que era ali mesmo. Ele ficou admirado porque viu a casa tão simples, ele achava que era uma casona, uma mansão e disse: ‘eu poderia falar com ele?’. Respondi: ‘o Bacurau é esse aí’. Olharam admirados quando viram ele aleijado, com as mãos e pés defeituosos. E falaram: ‘a gente tá vindo do interior, eu tava desempregado lá e a minha esposa ficou grávida, adoeceu. Nós viemos aqui pra Rio Branco fazer tratamento, mas a gente tá passando por uma situação muito difícil. Não temos pra onde ir. Não temos dinheiro nem pra alugar um quarto. Me falaram que o Bacurau poderia ajudar, e eu vim aqui. Sou trabalhador’, mostrou as mãos calejadas. Bacurau falou: ‘mano, pede pra Tereza mandar meu talão de cheque’. Fui, peguei, ele pediu pra preencher um cheque que desse pra uma feira de trinta dias. Calculei, preenchi, ele deu pro rapaz e falou: ‘vai em qualquer supermercado e faça uma feira. Se precisar de mais alguma coisa, volte aqui’. O rapaz abraçou  Bacurau, a esposa dele ficou tremendo e foram embora. Eu olhei pro Bacurau e perguntei: ‘não tinha dinheiro pra lavar teu carro, eu aqui lavando, chega uma pessoa que nem conhece e tu já libera o dinheiro que nem tem?’, ele responde: ‘eu num tenho dinheiro pra lavar o carro, mas pra dar alimento pra uma pessoa passando fome com a esposa doente e grávida, eu tenho. A gente sempre tem que ter dinheiro pra ajudar alguém que precisa’. Aquilo foi uma lição de vida pra mim. Quando a criança nasceu, o rapaz foi lá convidar o Bacurau pra ser padrinho e falou que tinha o dinheiro pra devolver. Tinha arranjado emprego. Esses exemplos, muitos que eu vi na vida dele, me ajudaram também a viver melhor”.

Mascara Foto do Bacarau

“(...) -Liberdade, liberdade. 
Cabeça erguida, voz, identidade;

Valeu a pena fazer a hora, 
Colher o medo o doce fruto da coragem; 
Valeu a pena escrever História 
Com mãos podadas e abrir passagem

-Liberdade, liberdade. 
Cabeça erguida, voz, identidade.”

Trecho da música “Valeu a Pena”, de Bacurau. Música feita para homenagear os 10 anos do Morhan.
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A Origem

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Vida nas Colônias

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Engajamento e Militância

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A partida

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