Engajamento e militância

O surgimento do Morhan

Com a locomoção prejudicada por graves problemas em seus pés, Bacurau, no final de 1979, foi para o hospital Lauro Souza Lima, em Bauru, São Paulo, fazer uma cirurgia reparatória dos seus nervos e tendões.

Chegou ao hospital e encontrou dois acreanos, Manoel Ferreira, o Cachoeira, que fora seu aluno na Souza Araújo, e Nélio Ribeiro, com apenas quinze anos de idade.

Certo dia, na recuperação da cirurgia, Bacurau sofreu uma repressão que mudou os rumos de sua vida. Cachoeira lembra o dia:

“Bacurau teve uma grande discussão com uma enfermeira que não queria que ficássemos nus da cintura pra cima dentro do centro cirúrgico. Ele tirou a camisa naquele dia, que tava muito quente, e ela o mandou vestir. Ele não gostou e discutiu com ela. Depois me chamou com o Gilberto e outro cara de Belém, a turma do Norte, e disse: ‘Manoel eu to pensando da gente criar um movimento pra nos livrar de muitos preconceitos que existem ainda’".

Após algumas conversas Bacurau redigiu uma carta programa, que foi discutida durante todo o ano de 1980, enquanto fazia fisioterapia no hospital. Os manuscritos desta carta se perderam, mas existe uma versão datilografada pelo próprio Bacurau, em 1983, intitulada “O ponto de vista do hanseniano sobre sua reintegração”. Este documento baseou o futuro estatuto do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase – Morhan.

Quando o diretor do hospital soube dos debates, desautorizou o nascimento de um movimento social nas instalações do Lauro Souza Lima. O grupo liderado por Bacurau, encontra apoio, em São Bernardo do Campo, também em São Paulo, com o médico Zé Ruben e a assistente social Natividade, e lá fixa a sede nacional do movimento. O Morhan então é fundado em 6 de junho de 1981.

Em 1982, Bacurau viajou pelo Brasil para divulgar o movimento recém criado. Nesses anos iniciais, ele e seus companheiros viajaram de ônibus, dormiram em bancos de rodoviárias, percorreram vários quilômetros a pé e proferiram muitas palestras. Fizeram uma verdadeira cruzada para fundar núcleos pelo país e combater as injustiças sofridas pelos pacientes de hanseníase.

O impacto do Morhan foi grande e imediato ao ponto de Bacurau ter sido convidado, em 1983, a ser membro permanente do Conselho Nacional de Saúde, que é uma instância colegiada do Ministério da Saúde e exerce o controle social sobre o sistema de saúde pública no Brasil. Bacurau permaneceu no Conselho até o seu falecimento.

O Morhan nas palavras de Bacurau:

“O Morhan não nasceu de um dia para o outro. Nasceu de muita dor. Do sofrimento de muita gente. Nasceu como uma necessidade. Para que a gente pudesse caminhar livre na sociedade. Não foi idéia de uma pessoa. A gente tinha a idéia de criar uma organização para lutar contra o preconceito. O Morhan nasceu para que o paciente de hanseníase, conhecido na sociedade como leproso, tivesse um espaço que pudesse reivindicar seus direitos. Por que até o direito de falar a gente não tinha. Morávamos nas colônias e se reclamássemos de alguma coisa, diziam: ‘Ah coitadinho! Ele vive assim, revoltado!’. Era sempre tido como revolta, como uma coisa de desespero, não como uma coisa racional, como reivindicações de direitos. O Morhan é a nossa estrada para a liberdade. Porque o preconceito é uma coisa que é gerada pela ignorância. E a ignorância só tem um remédio: educação, conscientização. A gente pensava em fazer um movimento para levar informações ao público e aos pacientes. Sobre como pega, se pega, de que forma pega, se tem cura, se é hereditária. Levar informações corretas e atualizadas para esclarecer as pessoas sobre a hansen”. (Bacurau, um caboclo amazônico,)

Mascara Foto do Bacarau

“(...) -Liberdade, liberdade. 
Cabeça erguida, voz, identidade;

Valeu a pena fazer a hora, 
Colher o medo o doce fruto da coragem; 
Valeu a pena escrever História 
Com mãos podadas e abrir passagem

-Liberdade, liberdade. 
Cabeça erguida, voz, identidade.”

Trecho da música “Valeu a Pena”, de Bacurau. Música feita para homenagear os 10 anos do Morhan.
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A Origem

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Vida nas Colônias

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A partida

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